quarta-feira, 23 de março de 2016

A mamãe quer cuidar bem de você

Essa foi a última frase que eu disse hoje, enquanto colocava uma das gêmeas para dormir. O trecho faz parte de uma conversa quase diária que tenho com as minhas filhas, desde que nos mudamos e suas camas passaram a ser no chão, onde geralmente nos deitamos juntas.

Poucos sabem, mas a hora de dormir aqui em casa pode ser um suplício. Eu sei que em outros casos, com crianças maiores, a operação chega a durar uma, duas horas. Acontece que minhas pequenas ainda não completaram 10 meses e eu já demonstro, por vezes, tanta falta de paciência.

Toda mãe passa por isso, eu acho. Mas sempre achei também que eu não passaria. Sempre confiei na minha pedagogia de nascença. Sempre me achei uma pessoa paciente e muito bem humorada diante das intempéries, principalmente infantis.

Mas não: quebrei a cara. A cada noite em que dormir se tornar tarefa árdua, como hoje, me sinto frustrada, desamparada, desequilibrada, péssima mãe, do tipo que a Supernanny repreende do início ao fim do programa.

Sabendo que o sono é quem esta no comando daquele pequeno ser que teima em não admitir o corpo inerte na cama, às vezes, eu insisto em mantê-lo na horizontal, na tentativa de fazer com que entenda que todos seus incômodos serão sanados com a chegada aconchegante do soninho. Por isso, às vezes, também acabo me excedendo na insistência e, com a falta de paciência e o cansaço de um dia inteiro que já dura 9 meses, na força com quem tento dominar aquele corpinho de nem 8kg. É saculejo, pega daqui, resgata de lá, ajeita acolá, que nem sei. Resultado: neném estressado, mãe mais ainda.

É nessa hora que o choro vem. Vem forte, silencioso, queimando por dentro pra não virar mais um motivo de distração pra menina, já tão desfocada do descanso. E vem por vários motivos: sem meias palavras, da raiva, da impotência, do descontrole, da covardia, do arrependimento e, por fim, da culpa de olhar praquela criança que só deseja ficar acordada, sentadinha na cama, mexendo em seus bichinhos por um tempo a mais daquele estipulado previamente por mim.


E então chega a hora da minha conversa sem som, ao pé do ouvido dela, que tem mania, desde que nasceu, de dormir mexendo na nossa mão. Entre pedidos de desculpas e para que deixe o sono chegar e até promessa de que vamos dormir agarradinhas essa noite, uma cabeçada do neném que ainda não encontrou a posição certa pra relaxar. Recomeço a prece. Ela vai cedendo e o sono, se instalando.

Daí o jogo se inverte. Ela fecha os olhos e parece não ligar mais pro que eu falo. Parece até querer que eu me cale. Eu, então, explico, agora com mais calma e carinho, que a mamãe fica cansada e que sabe que ela está com sono. Que agora não é mais hora de brincar, que a Liliva tá dormindo e não merece ser acordada. Que a mamãe tem 31 anos, mas que se sente adolescente em alguns momentos. E a mamãe fala isso olhando pro espelho fixado na parede. De fato, mamãe tem cara de adolescente e ela mesma demora a acreditar que tem duas filhas. Digo também que mamãe não quer mais brigar na hora de dormir e nem durante o dia: quer se entender com a neném.

Enfim, que "a mamãe quer cuidar bem de você".

Meu coração de mãe que encontra sinais em todos os gestos, jeitos e sons, me faz acreditar que minhas confissões foram ouvidas quando, ao tentar me levantar, sua mãozinha segura forte a minha, como quem diz "vamos ficar bem".

E segue o jogo. 

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