Naquele dia, Ana
Luiza acordou com um pouquinho de dor de barriga. Talvez reflexo da noite
anterior, aniversário da vizinha, comemorado com alguns doces e refrigerante.
Ainda melosa, pela manhã, pediu à mãe que a deixasse faltar à aula.
Só hoje! Só hoje, por favorzinho! – pediu. A mãe, atarefada, na falta de tempo para
argumentações tão bem fundamentadas, deu um ok,
tentou esconder o cansaço com borrões de batom nas bochechas, ajeitou uns
fiozinhos soltos de cabelo, olhou o espelho e, já saindo, disse que mais tarde
estaria em casa de volta.
Dia de ficar com a
vovó Neide. Ou seja: ver sua quase-xará Ana Maria Braga na TV e rir um pouco
com Louro José, emendar em algum desenho animado e dar uma volta na pracinha
ali da frente. Dito e feito.
Às 10h, saíram. A
avó segurava um encarte de supermercado nas mãos - um hábito que nunca
conseguira abandonar. Ana, vestindo apenas shortinho e bustiê naquela manhã quente
de novembro, levava duas Barbies descabeladas para brincar na poeira fina que
cobria o chão do banco onde estava a avó.
Uma hora mais tarde:
Vambora que ainda tem que ver almoço pra você – disse a senhora, sentindo uma
leve falta de ar, que mais se parecia com um apertão de angústia. Em resposta,
ouviu uma súplica que fez sentido: Se eu
tivesse ido à aula, ainda não teria chegado em casa!.
Mal a menina acabara
de convencer, a contragosto, sua avó, começou a correria. Com o susto, Ana
correu pra atravessar a rua, chamando pela senhora. Aturdida por seus reflexos
ainda infantis, ela não percebeu que ia de encontro ao alvoroço: um carro de
polícia que aparecera em busca de supostos bandidos escondidos.
Em intermináveis 20
segundos, o aperto no peito da avó se transformou num rombo. No peito de Ana.
Um rombo de fuzil. De onde jorrava sangue, marcando todo o asfalto que agora abraça
o corpo de Ana tão calorosamente quanto se deve acolher qualquer criança 6 anos
de idade que sente com medo e dor.
O carro da polícia
pede passagem e ensurdece a todos com sua buzina, os supostos bandidos se
dispersam pelas vielas do bairro, moradores, assustados, voltam para suas
casas, das quais trancam bem as portas. Ana, ainda sem entender ao certo o que
lhe aconteceu, cede ao sono que vem chegando e cerra os olhos. Neide grita por
socorro. Neide grita. Grita...
...e ninguém ouve.
Aliás, ninguém nem viu, ninguém vai ver. O tiroteio não foi na Nossa Senhora da Paz. Bruna, mãe
de Ana, não é advogada, dentista ou psicóloga; trabalha com serviços gerais na
universidade Estácio de Sá no Centro. Os coleguinhas da menina não
estavam dentro de uma das salas do Andrews, mas na Escola Municipal Monte Castelo, em Coelho Neto. Ana não
vai mais lá. Nem está mais aqui. Nem no jornal. Só nas estatísticas. Junto com Breno, Cíntia, Rafinha, Everton, Michele e tantos outros.
Mas... Quem liga?


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