sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ana ou Quem liga?





Naquele dia, Ana Luiza acordou com um pouquinho de dor de barriga. Talvez reflexo da noite anterior, aniversário da vizinha, comemorado com alguns doces e refrigerante. Ainda melosa, pela manhã, pediu à mãe que a deixasse faltar à aula.

Só hoje! Só hoje, por favorzinho! – pediu. A mãe, atarefada, na falta de tempo para argumentações tão bem fundamentadas, deu um ok, tentou esconder o cansaço com borrões de batom nas bochechas, ajeitou uns fiozinhos soltos de cabelo, olhou o espelho e, já saindo, disse que mais tarde estaria em casa de volta.

Dia de ficar com a vovó Neide. Ou seja: ver sua quase-xará Ana Maria Braga na TV e rir um pouco com Louro José, emendar em algum desenho animado e dar uma volta na pracinha ali da frente. Dito e feito.

Às 10h, saíram. A avó segurava um encarte de supermercado nas mãos - um hábito que nunca conseguira abandonar. Ana, vestindo apenas shortinho e bustiê naquela manhã quente de novembro, levava duas Barbies descabeladas para brincar na poeira fina que cobria o chão do banco onde estava a avó.

Uma hora mais tarde: Vambora que ainda tem que ver almoço pra você – disse a senhora, sentindo uma leve falta de ar, que mais se parecia com um apertão de angústia. Em resposta, ouviu uma súplica que fez sentido: Se eu tivesse ido à aula, ainda não teria chegado em casa!.

Mal a menina acabara de convencer, a contragosto, sua avó, começou a correria. Com o susto, Ana correu pra atravessar a rua, chamando pela senhora. Aturdida por seus reflexos ainda infantis, ela não percebeu que ia de encontro ao alvoroço: um carro de polícia que aparecera em busca de supostos bandidos escondidos.

Em intermináveis 20 segundos, o aperto no peito da avó se transformou num rombo. No peito de Ana. Um rombo de fuzil. De onde jorrava sangue, marcando todo o asfalto que agora abraça o corpo de Ana tão calorosamente quanto se deve acolher qualquer criança 6 anos de idade que sente com medo e dor.

O carro da polícia pede passagem e ensurdece a todos com sua buzina, os supostos bandidos se dispersam pelas vielas do bairro, moradores, assustados, voltam para suas casas, das quais trancam bem as portas. Ana, ainda sem entender ao certo o que lhe aconteceu, cede ao sono que vem chegando e cerra os olhos. Neide grita por socorro. Neide grita. Grita...

...e ninguém ouve. Aliás, ninguém nem viu, ninguém vai ver. O tiroteio não foi na Nossa Senhora da Paz. Bruna, mãe de Ana, não é advogada, dentista ou psicóloga; trabalha com serviços gerais na universidade Estácio de Sá no Centro. Os coleguinhas da menina não estavam dentro de uma das salas do Andrews, mas na Escola Municipal Monte Castelo, em Coelho Neto. Ana não vai mais lá. Nem está mais aqui. Nem no jornal. Só nas estatísticas. Junto com Breno, Cíntia, Rafinha, Everton, Michele e tantos outros.

Mas... Quem liga?

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