sábado, 25 de fevereiro de 2012

La petite mort

Aquela que, outrora, desconfiava, hoje, só deseja levar ao cume este embolado sentimento, que, por vezes, se trama na linha tênue que permeia o amor, para, dois segundos depois, viver o ódio, a inveja da tua também condição de mulher, sem olhar-te o sexo do corpo, mas, sim, do sentimento, da tempestade sempre iminente de hormônios, da tua odiosa, porém, sempre também, amorosa, reação feminina.

Uma mulher a quem amar é o que eu procuro e encontro e descubro a cada segundo com você sob a égide do meu olhar, do olhar de olhos cerrados. O mesmo que relembra, com doçura, o rosto que se desfaz em sorriso ao ver uma criança, pensando, quem sabe, no dia em que de teu próprio ventre surgirá uma – com tua cara, e, mesmo sabendo do impossível, imaginando que ali se estampará algum traço meu também. Vislumbres de um amor, porque a ele nada escapa do possível.

A amabilidade maternal articulada em gestos simples, no entanto, necessários, como arrumar uma cama na qual se descansará ao longo de uma noite, como num corte de câmera e jogo de lentes, me faz vê-la transformar-se numa vadia, configurada no melhor sentido da palavra, que, de quatro, me faz sentir como um herói a desbravar o que de mais intenso e interno a habita: o sexo do qual pouco se vê, mas muito se sente, com todas as suas vibrações, irrigações, nervos e pelos. A imagem que ganha como trilha sonora os ruídos de uma cama solta no espaço, que se roça ao chão no mesmo ritmo que minhas mãos penetram o território sagrado de um corpo que não nasceu meu, mas assim se fez, e, hoje, não há dúvidas, nesta condição para sempre será. O corpo sacramentado, que, em si, guarda meus sentimentos e expele os seus próprios. Não mais aquele vulgar, que de tantos outros já foi.

A boca. A mesma que, por muitas vezes, proferiu impropérios tendo a mim como causa e conseqüência, mas que agora, por intermináveis segundos, me ama, não em palavras, mas no jogo de língua e palato que persuade minhas entranhas a uma entrega cada vez mais intensa e que, sem pestanejar, hão de me fazer explodir no gozo: do corpo, mas, mais forte ainda, da alma.

Minutos depois, tempo imaginário decorrido com a mesma velocidade que se leva para mudar uma vida, a urgência em amar estanca-se por vontade própria e, nesta hora, a sensação recém-chegada, a que ilumina a força que corre por entre o cobertor e o lençol, toda a verdade que por ali circula, por nada no mundo se troca.

Pois nada há de mais sagrado e paradoxal do que sonhar vivendo la petite mort.

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