Durante os quatro anos que freqüentei a faculdade de jornalismo, na qual – finalmente – vejo-me em vias de terminar, religiosamente, peguei a barca Rio-Niterói das 7h. Da Praça XV, tomei o ônibus 415, linha que sai da Vila da Penha, da Zona Norte, e cruza a cidade rumo ao núcleo da Zona Sul, o Jardim de Alah, passando pelo Aterro do Flamengo.
Posso contar nos dedos de uma mão as vezes que, ao mirar à minha direita, não avistei aquele homem, cuja aparência assustaria – ou faria rir – qualquer transeunte um pouco menos atento. Mas eu, não. Sempre de pé no coletivo, prestei-me a olhá-lo atentamente e até arriscar um diagnóstico seu universo.
Com a aparência maltrapilha, digna de um morador de rua, ele se punha incessantemente a conversar consigo mesmo. O que pensava jamais será sabido. No entanto, seus passos estão gravados na grama do canteiro central, ali, bem perto do aeroporto Santos Dumont, quase ao lado da Embaixada Norte-Americana no Rio.
Incansável no fardo humano de trilhar seu próprio rumo, o homem provocou, com seus pés descalços, o que talvez nem o mais letrado dos passageiros a ali passar diariamente poderá conquistar um dia: marcar o chão de sua cidade. E por que não de seu país, demarcando assim seu espaço sobre o mundo?
Em um trajeto que não distava mais do que 6 ou 7 metros, com 3 de largura, compreendendo duas árvores, ele espantou a poeira de sua estrada. Tamanha sempre foi sua insistência que venceu o solo e, seduzindo a grama ali nascida, fez daquele sua morada.
Noutro dia, coloquei-me a postos em minha janela à direita, como de costume. Não sei se pela chuva, mas o homem não estava lá. Fitei o solo – sua principal marca em mim – e, ainda assim, não o vi, nem em rastros. Pensei na frase “a erosão naquele homem”. Em fato, a recuperação da vegetação – que já se fazia crescente – era símbolo de sua ausência, o que, fatidicamente, transferiu a erosão a mim. Justamente como todo fechamento de ciclo.

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