
Okay, mas vamos lá... sei que não tenho mais nove anos de idade!
Tudo bem. Mas se, por um acaso, me fosse pedida uma redação nessa volta às aulas que falasse dos acontecimentos mais importantes das minhas férias, certamente o começo seria algo parecido com isso:
“Querida Professora,
Nesse tempo em que estive afastada da escola, aprendi uma porção de coisas. Coisas que nem o mais alto nível de graduação acadêmica me daria em anos de estudo catedrático.
A primeira delas, talvez fosse desmentir a máxima de que ‘o céu é o limite’, - pois não o é. Para nada, aliás. Seja para a dor, a alegria ou a auto-superação – do corpo e da mente. Há sempre um pouco de prazer por detrás do incômodo de uma bolha estourada nas mãos, só por sabê-las ativas. As unhas, dos pés, inclusive, sempre podem ficar um pouco mais sujas sem que o constrangimento por isso se faça presente.
Descobri que para me bronzear não preciso chegar a uma cidade de veraneio: basta lavar toda a louça de uma casa que já me visto com a cor do verão. Que detergente pode ser um ótimo emoliente e sapólio um esfoliante facial de primeira qualidade. Que scotch-bright acaba com o encardido de fuligem não só dos objetos, mas como das costas e do rosto. Que Bombril promove maravilhas! Que xampu anti-queda deixa o ladrilho do banheiro um brinco! Que pano de chão e flanela têm o máximo de absorção contra gotas de suor na testa. E que não há sujeira que resista ao Veja Multi-Uso misturado a um pouco de OMO e Água Sanitária. Aprendi também a diferenciar à distância os diversos aromas de Bom-Ar, e a saber que o de Lavanda Campestre e Jasmim são os que mais inibem o cheiro chamuscado da madeira. Que os pratos e canecas usados extenuantemente por pedreiros, sempre me servirão um café forte ou um almoço improvisado num dia de correria. Ah! Eis aqui uma ode aos pedreiros: são eles os verdadeiros arquitetos responsáveis pela reconstrução dos sonhos e realidades de uma família.
E, por isso mesmo, é que acabei me inteirando um pouco mais ainda sobre preços e nomenclaturas de ‘pequenos detalhes’ que fazem toda a diferença dentro de uma obra, como: carrapetas e afins; conduítes e terminações coaxiais; fechamentos de ¼ de volta; alisares e caixonetes. Latas de 3,6 ou galões de 18L? Tem de tudo! E só eu sei onde comprar mais em conta! Aliás, querida Professora, dá para imaginar que por dentro das paredes branquinhas que sustentam telhados e separam cômodos, corre quase 1 Km de fio??? Pois é, tão difícil de acreditar, quanto complicado e trabalhoso de instalar...
E, numa reflexão um tanto quanto falaciosa, presumo que ‘se um vira-latas não morre asfixiado, há uma grande chance de ele se afogar no dia seguinte. E que se, por ventura, for resgatado a tempo, a probabilidade de contrair uma pneumonia é enorme, então’. Mas também não há o que supere a felicidade de vê-lo de volta ao conforto de seu espaço próprio.
Convenci-me, e a todos à minha volta, de que não há poeira, grossa ou fina, que sobreviva ao anseio pela limpeza.
Embora algumas manchas tenham resistido em cantos e frestas, considero-as chagas importantes no cenário atual. Marcas de um tempo de aflição e desespero, sim. Mas também de garra e decisões – ingredientes essenciais para uma obra terminada em tempo recorde na reabilitação de sua própria casa.
O sono se torna supérfluo quando uma equipe depende de soluções rápidas e certeiras na compra de material.
Aceitei que a caneta, esta com a qual escrevo agora, durante esse tempo não fez nada além de listar afazeres e gravar telefones importantes. E que a poesia que por ela geralmente passa, por hora esteve somente pululando na cabeça, a espera de um minutinho de folga. Como este. Ufa!
Hoje, mais do que já pude supor por toda a minha vida, sei que não importa se é namorado ou namorada, ou o preconceito e a restrição que se enfrente por conta disso: o importante mesmo é sabê-los braços e pernas fortes e dispostos a cooperar e um coração do tamanho do mundo capaz de apaziguar as marés da cabeça e cansaço do corpo.
Entendi que todo mundo, por mais dureza que aparente, precisa e quer ajuda. Aprendi a recebê-la como um presente.
Tudo isso me serviu para que hoje eu me considere ‘uma boa camarada’ e consiga entender que nada posso sozinha. É nessa hora que se tem clareza de quem ‘levar para a vida’ e aqueles com que a melhor atitude a ser tomada é ‘deixar que a vida leve’.
Apesar de não ter feito revisão alguma das matérias do ano que passou, posso dizer que algumas descobertas se solidificaram e que meus professores teriam muito do que se orgulhar. Por exemplo: o de física ficaria intrigado quando eu dissesse que a velocidade do fogo, em alguns momentos, parece ser maior do que o da luz. Que o fogo, num piscar de olhos, derrete tudo o que encontra pela frente, sem distinção de grau de importância, tamanho ou material. A de matemática passaria a ensinar a nova fórmula que inventei: que amizade e companheirismo são os maiores multiplicadores do número de voluntários na recuperação do coeficiente comum de uma equação que subtrai objetos perdidos, mas soma cuidados. O de português me daria um ‘10’ quando eu lhe apresentasse a nova divisão silábica de velhas palavras conhecidas, como ‘com-paixão’ – pois é com ela que se estende paradigmas. Para a professora de música, a nota Dó soaria também como a força motriz para reerguer-se. O de química se dedicaria a estudar profundamente os efeitos da cafeína no cérebro humano quando, ao avesso dos ponteiros, o dia tem só 24h para que tudo aconteça. O de geografia não se incomodaria se eu concluísse que não importa o bairro, a cidade, o país ou o continente: lar é sempre lar, e, onde quer que você esteja, o céu sempre lhe parecerá claro e sem nuvens. O de ciências... ah! O de ciência! Esse ficaria com a pulga atrás da orelha ao tentar desvendar os fenômenos de fé, os mesmo que removem montanhas quando necessário.
E só para finalizar: o mais importante disso seja, talvez, querida Professora, nunca deixar nada no stand-by – sejam os eletrodomésticos plugados na tomada ou assuntos por tratar no seu dia-a-dia.”

Um comentário:
Não preciso nem falar né?
Chorei lendo...
e nada é tão grande como o coração de um amigo na hora de necessidade.
Portanto seu texto é bem pequeno perto do teu coração!
Beijos pequena Beta..
Da Ruiva
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