
Vou aproveitar então que nem tô com tanta fome assim. Espera a porta fechar de novo, se não eles vão me ver e me mandar embora. Coitados... Vamos sentar ali. Tem espaço para a senhora e para a câmera. Mas só. Nada de gente de fora, viu? Desculpe o mau jeito. Eu só me solto depois de um tempo, conforme pego intimidade com a pessoa. Começando pelo começo? Foi assim: quando conheci Formigão, ele não tinha mais que 17 anos e já chefiava o tráfico de drogas todinho do Morro da Mineira. Eu, com 13 na época, passava aperto em casa e saía todo dia procurando o que fazer. Mas já tinha escutado várias vezes de Formigão que meu tempo de leva-e-traz já tinha se esgotado, que com aquela idade eu me transformaria num x-9 qualquer e isso acabaria em confusão. Aos 16, consegui, finalmente, ser mandado para um reformatório em Vargem Grande e lá aprendi de um tudo: desde a melhor maneira de dar um soco sem machucar as mãos até como e onde desovar os, os... você sabe.
Como já não tinha mais contato com ninguém da minha família – meus primos e irmãos muito provavelmente já estavam mortos – quando fui libertado, dois anos depois, acabei pedindo ajuda a um mecânico que tinha sido meu vizinho em Vaz Lobo. Ele me ofereceu casa em troca do meu trabalho, com o qual eu ganharia dinheiro e então comeria. Fiquei nesse esquema até meus 22 anos, quando conheci a Paula e com ela tive três filhos, dos quais 2,5 morreram – o que restou, não fala e não anda. Nasceu assim.
Com 24 anos decidi – agora veja a senhora - que o mundo era bem maior e que eu devia era buscar o que tinham me prometido quando ainda morava na barriga da minha mãe: um lugarzinho qualquer que ficasse em cima do chão e debaixo do céu e que fosse só meu. Bonito, não acha? É que sempre que passava pela Avenida Brasil, muito rapidinho conseguia ver um pequeno trecho da Baía de Guanabara e todo aquele horizonte e mar sem fim. Deixei para trás, "aos votos de fé e promessa de volta", a família que um dia pensei que pudesse sustentar.
Daí em diante, até mais ou menos os 32 dos 35 anos que tenho, viajei. De ônibus. Na garupa. Na boléia. Bati, mas também apanhei. Ou apanhei, mas também bati? Tanto faz. Nesse tanto de tempo fui perdendo a força que só faz machucar a cara do outro, e fui ganhando a que muito peso já carregou. Vi que tem gente de bom coração, o problema é que quando jovenzinho não conhecia ninguém assim. Troquei várias vezes um aperto de mão e um trabalho entregue no prazo por um ou até dois pratos de arroz e feijão num dia só. Pode parecer doideira, mas é verdade. Tem tempo prum cigarro, dona? Você, não. Eu. Tem isqueiro?
Voltando às vacas douradas.... por quase uma década, dormi tanto em rodoviária de cidade pequena, quanto em motel confortável em companhia de alguma bela moça que me convidasse para tal – devo confessar que até tirei um trocadinho com isso, mas já faz é tempo...
Quando decidi voltar ao Rio de Janeiro, em outubro de 2004, vim parar em Copacabana. Bairro chique. Gente de poder. Encontrei nesse beco aqui, na esquina do 'Maggiare', minha casa. De andarilho, que rima com maltrapilho, rapidinho virei 'mendigo'. Não acho feio morar na rua, não. Feio é pedir um prato, sabendo que não tem estômago para tudo aquilo, dar uma beliscada e mandar o garçon retirar a mesa. E eles, os de gravata borboleta e guardanapo na mão, como se não viessem mais ou menos do mesmo lugar que eu, obedecem - sorte a nossa! - aos pequenos patrões e vêm aqui alimentar a rapazeada. O Fível, esse que passou correndo aqui pela esquerda, o Palito, aquele que tá ali quase na esquina e eu, esse que tá gravando. Gostou? Às vezes chega mercadoria já de ontem. Essa eu dou para o Fível, que tem estômago bom. Eu e o Palito ficamos só com o que tem de primeira. Outro dia até dividi salmão com ele. Ele gostou, eu não. Quando dá mais ou menos uma hora da madrugada, o povo vai embora de barriga cheia, e aí é hora então de encher a minha. Não acho feio, não. Não é roubo. E de roubo eu entendo. Só não faço mais. Prefiro salmão! (gargalhadas) Não é não, Palito?? (mais risadas)
E assim contava minha história: De Vaz Lobo a cidadão ilustre de Copacabana!

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