terça-feira, 8 de agosto de 2017

9:16. Hoje estou atrasada. Logo eu, que carrego na alma um relógio inglês. A praia tá toda parada e, ainda nem em sua metade, já ouço ao longe o apito da barca em que eu devia estar. Explico. Ontem fiquei doente, e esta noite me dei o direito de dormir por 8 horas seguidas. Necessário, por mais que implique em menos tempo na companhia das minhas filhas pela manhã. Cheguei só na hora do banho. Que maravilha de tempo só nosso! Nem a pirraça de quem já tá com sono, nem as brigas pelo chuveirinho, nem a iminência de um tombo no chão ensaboado dissipam a felicidade que é cuidar delas, do bem-estar, da renovação, durante o banho. Saímos do banheiro e tava frio. A missão era chegar o quanto antes no quarto para enfim se aquecerem. Corremos em tom de aventura. Fechamos a porta. Like everyday, não querem "aquela" fralda, não gostam "daquela" calça e nem vão pra escola com "aquela" blusa. Justamente "naquele" dia, não estão afim "daquela" roupa que escolhi. Mas vão mesmo assim, porque "isso aqui é uma família, e não uma democracia". A hora do sapato é sempre um show à parte. É o croc do Cocó um dia, no outro, vai o tênis. Senta na cadeira, calça o sapato, lembra que não colocou talco, vulgo "sal", tira sapato, levanta da cadeira, vai no balde onde estão todos os outros pares. Vê qualquer coisa no caminho, co-au-quer, e se distrai. Perdemos o foco. Recomeça. Isso x2, ok? Uma vê o carrinho dobrado no canto da cozinha e decreta: quer seguir a bordo dele. Eu digo: querida, vamos de elevador, andando até o táxi. Teimosia e então o apelo, aos prantos, com lágrimas que descem e o corpo que deita em tom de represália, ali, no chão sujo da área: "não quero táxi, táxi não, não quero táxi, táxi não, mamãe". Ok, vamos de helicóptero. Vem calçar o tênis. Nessa hora, o micro dedão do pé ganha a agilidade da asa de beija-flor e me impede, a todo custo, de encaixá-lo, e aos outros dedinhos também, no sapato. "Quer-o-croc-do-cocó!?!?!???", três vezes. E cede. Enfim. Em uníssono, um "quero colo". E seguimos, ludibriando e enrolando as crianças até a chegada do elevador. Capítulo 8 mil: escada da portaria. Elas contam. Ainda em shuffle, mas contam: 1, 5, 8, 2, 5, 8... 10!!!! Não querem mais as mãos das mães, vão sozinhas, apoiadas na parede. Rua. Uma no colo, outra na mão. Temos um ritual de ida até o ponto. Primeiro, olhamos bem para os dois lados e atravessamos correndo. Chegamos ao muro da UFF, bem extenso, onde bate o sol da manhã. Acompanhamos nossas sombras, sacudimos os cabelos balançando os cachinhos molhados ainda, cantamos boi da cara preta enquanto fazemos sombra de chifres na parede. E seguimos assim, de nesga em nesga de luz. Não querem ir de mãos dadas, porque usam bolsinhas onde carregam livros, digo então pra se darem as mãos. Riem, riem muito do próprio desacerto: uma quer dar mãos, outra quer dar braços. Seguem cantando, resolvem dar meia volta e dançar em sentido contrario. Corrijo a rota, lembrando que a meta continua sendo o táxi... ignoram. Anseiam por uma paradinha para investigação da bolsa, acham justo ler o livro ali mesmo na calçada, em meio ao ponto de ônibus que enche e esvazia. Retomamos. "Quero colo", pego. "Quero colo", pego também. Ja são três mochilas, duas crianças, duas bolsas, dois livros, um cavalo marinho e um paninho da Peppa no cabide-mãe. Opa, outra fresta de sol. Precisamos descer e cantar o boi. "Chão". Boi, sombra, chifres. Mãos dadas? Braços dados? Impasse, briga e choro. Colo. Um sono que chega avassalador, o corpo solto no espaço, o bebê que agora tem o peso de um homem de 30 anos deitado em um dos ombros. Mas é a mamãe, tudo bem, ela aguenta... Avançamos 5 passos. O ponteiro correndo e eu me dizendo "vai dar, ok, vai dar". Seguimos. Atravessamos a rua com cuidado. Põe criança, põe a outra. Tira mochila, mochila, mochila, separa dinheiro, lembra de manter a bolsa que o livro vai ser a atração da viagem. Dois, mas só um no alvo do desejo. Discussão. Ok, passou. Vem no colo, vai no chão, não pisa no banco. Ufa, se intreteram. Hora de saltar. Pula por cima de uma, pega bagagem da galera. Pega bebê, pega outro. Pega troco. Dois passos. Um estrondo. Medo, criança travou, não quer mais andar. Quer colo, quer livro no colo. Chegamos à porta da escola. Oi, tia, mostra livro, quer contar a historia que aprendeu no caminho. Volta, dá beijo na mamãe, um abraço desengonçado e com pressa de brincar com os amigos no pátio. Tira sapato, fica a chupeta. Bom dia, queridas, mamãe Juju vem buscar. Viro as costas e ouço aquelas vozezinhas se afastando. Estão entregues, vão batalhar mais um dia de suas próprias vidas, criar suas próprias amizades. Mamãe vai embora, mas a certeza da volta é plena. 

Pego o ônibus atrasada, a praia tá parada. Mas tudo bem, vai dar, vai dar. Relembro os passos até ali. Escrevo, sigo escrevendo até a barca, em todo o trajeto pela baía, sem deixar passar nenhum detalhe, na ida ate o metro, dentro do vagão, salto na praça e as linhas ainda se multiplicam. 

No caminho, encontro uma uma amiga do trabalho, conto a historia da minha vinda pra ela. 

11h em ponto e eu acabo de sentar à minha mesa. Bom, agora, meu dia vai enfim começar. rs rs rs

Este não é um case de sucesso. Mas poderia ser.

Nenhum comentário: