Semanalmente eu assisto ao programa “Compulsão”, do canal
GNT. Tô viciada. Brincadeira. rs É bom, é bem dirigido e vem depois de
“Histórias de Adoção”, que também assisto sempre. Mas o que me prende mesmo é que há sempre uma
identificação enorme com cada personagem, seja este envolvido com álcool,
drogas, compras, jogos.
Desde que parei de beber e de fumar cigarros, há 3 anos, já
tive fases: luto, dor, abstinência, saudade, nojo, raiva, tudo isso em loop. Só
não tive um sentimento, desde então: o de que, algum dia, mais cedo ou mais
tarde, eu iria voltar aos velhos hábitos. Eu me pergunto por que. E me
respondo: a qualidade hoje – qualidade do todo – não se paga, não se vende, não
se rende.
Eu comecei a beber com 12 anos. E comecei a fumar com a
mesma idade. Até hoje não sei o que veio primeiro, mas sei de uma coisa: os
dois, o álcool e o cigarro, sempre foram objetos de desejo na minha vida. Na
verdade, há um terceiro elemento: o sexo. E, para os três, eu sempre me impus
que deveria, apesar de toda curiosidade latente, esperar por uma idade decente
para início de consumo. Bem, julguei, ao álcool e à bebida, suficiente os 12.
Por vezes me dói lembrar que eu nem ao menos havia menstruado nessa época. Sexo
foi relativamente cedo também, mas só aos 15.
O que aconteceu dos meus 12 até meus quase 29 anos foi uma
sucessão de erros, de cenas lastimáveis, de porres homéricos, de perda da
inocência, de envolvimento precoce com mundos para os quais eu ainda não estava
exatamente preparada, de revolta interna calada, de dor velada. Foi tudo isso?
Sim. Foi somente isso? Não. Absolutamente não. O que aconteceu nesse intervalo
de 17 anos foi, única e somente, a minha vida. O meu crescimento, as minhas
descobertas, minha formação de caráter, minhas conquistas, meus anseios, meu
amores, minhas emoções.
Volta e meia, me pego relatando à minha mulher, também
abstêmia há 6 anos, episódios de bebedeira. Ela, que também tem problemas com
álcool, se horroriza. O mais curioso
é que me soam tão naturais, me veem com tanta nitidez à memória, que parte da
minha surpresa vem da surpresa de quem me ouve.
Dia desses, estávamos numa festa e tocou “Kiss me”, essa
música lindinha do Sixpence None The Richer. E eu me lembrei da vez que eu e minha amiga de infância e
vizinha fomos parar numa festa no morro que ladeava nosso bairro. Como chegamos
lá, acho que me lembro: provavelmente com os pais ou o tio dela, que era o
primeiro na linha sucessória do Presidente (da Boca de Fumo), um amigo íntimo da família. A questão é que
começamos a beber vinho roxo e certamente pedimos para ficar mais um tempo. No
que fomos atendidas. Eu devia ter uns 13
ou 14 anos na época.
Nesse dia, eu fui chamada a atenção pela Cacá. Abre parênteses:
Cacá é dessas pessoas de muito coração e pouca estrutura para emoções. Sempre
fomos grudadas. E ela muito dependente de mim. Fecha parênteses. Bem, nesse
dia, foi ela quem me avisou que alguns moradores do morro não estavam gostando
muito da minha performance na quadra de areia. Eu dançava a música “NumberOne”, da Alexia, marcando o chão com meus pés. E comecei, por euforia do
álcool, a repetir muito aquele movimento, um semicírculo em passos para trás.
Se eu fosse confiar na minha memória, diria que permaneci assim por meia hora.
Mas deve ter sido por 4 minutos, tempo suficiente para provocar muitos olhares.
*Ui, acabo de lembrar que comi angu com sarapatel também. Deixa pra lá!*
No fim da festa, descemos para casa, de carro, de carona com
alguém. E no rádio tocava a tal “Kiss me”. E eu cantava “so fuuuck me” e morria
de rir e chamava a atenção de Cacá pra que visse a grande sacada que eu estava
tendo com o trocadilho. Fui repreendida. Senti medo, lembro. Me senti exposta e tive vergonha.
Cheguei em casa e pluft. Só me lembro do banheiro social,
que era revestido por azulejo marrom escuro, todo azul no entorno do vaso
sanitário, e o cheiro insuportável de azedo. Era a mistura do meu vômito roxo
com a coloração belíssima do chão. Ainda de madrugada, ou pela manhã, bem cedo
(sempre sofri de euforia alcoólica), limpei tudo. Não sei se alguém percebeu.
Até hoje.
Daí, no dia seguinte a este relato feito à minha mulher, eu
voltava da farmácia e desenvolvia um pensamento, talvez o gatilho deste texto.
Era uma simulação de conversa entre nós. Uma conversa real já iniciada, noutro dia,
mas não finalizada. Assistindo ao programa da GNT, certa vez, eu disse que achava que
não teria problema em tomar uma cerveja um dia, mas que a opção não se aplicava
ao cigarro, vício que considero bem mais agressivo.
Ela, em tom de surpresa e certa revolta, perguntou: “ah,
então você acha que não tem problema com álcool??”. Eu disse que sim, tenho,
claro. Mas que minha compulsão não tendia ao exagero de consumo. Até me levava
a isso, sim, mas que não era esse o mote. Mas do papel que a
bebida exercera na minha vida: tão estrutural quanto a minha própria vida.
Quis dizer que meu alcoolismo é perigoso porque ele tem a
minha idade. Crescemos juntos. Descobrimos o mundo juntos. Estivemos juntos
quando precisamos tomar grandes decisões e sentir grandes dores e pungentes
amores. Escrevemos juntos. Nos amamos, nos ferramos. Nos ludibriamos
mutuamente. Éramos apaixonados. Daqueles pares que se matam mas não se separam: se perdoam porque se conhecem.
Como separar duas vidas? O álcool era o outro. Na verdade,
ele era eu. Um eu com álcool. Um eu com coragem, personalidade. A Roberta não
havia, não se via quase nunca. A Roberta era sem graça, não tinha cor. A
Roberta era antissocial, gostava de casa, não gostava muito de si, se achava
feia, gorda, fora de contexto. Quem respondia pela Roberta era a personalidade
alcoólica que se desenvolvera ao longo de anos.
Era essa mesma personalidade a que se destruía com prazer de
um cigarro. De vários. Sim, com cigarro não havia limites. Era mesma que traía
as namoradas. Que ia dormir amando alguém, acordava sentido um clique na cabeça
que a desconectava do coração e precisava, então, na sequência, terminar aquele
namoro, que, não, nunca havia dado certo – e “era tão evidente que não temos
nada a ver!!”.
Não havia certeza. Aliás, eu não tinha certeza das minhas certezas. Não podia confiar em mim mesma. Nem na memória, nem
no compromisso com a realidade, nem no futuro, nem nas minhas reações e nem
podia predizer, tinha pavor!, o que iria fazer no fim de semana. Nítida a
insegurança? Triste.
Hoje eu olho e vejo tristeza no meu passado, mesmo que eu
seja leonina e não goste de admitir que sinto tristeza e me penalizo por mim.
Por tantos anos de submissão a um elemento externo que tentava preencher algo
interno que andava perdido. Era um jeito de escapar do compromisso de ser.
Tenho quase 32 anos, duas filhas e um casamento batalhado
dia a dia, como deve ser. Tenho uma mãe, uma irmã, e tento manter nossas
relações, na medida do possível, em dia. Não tenho mais culpa em achar que não
estou performando bem como filha ou como mulher ou como irmã, vez ou outra.
Agora eu sei que eu sou humana e que erro bastante. Não preciso me vender. Não
preciso ter dinheiro pra comprar. Não quero estar ou me sentir por um fio de
nada.
Essa frase: talvez o meu grande estalo na vida, aquele que motivou essa segurança quanto ao risco de recaída, tenha sido uma frase que
Juliana me disse logo que nos conhecemos e já discutíamos. Sempre me refiro a este dia, porque, nem ela sabe, o quão importante foi. Ela disse: “Eu não te amo por
um fio. Eu te amo porque você é você”. E foi como se caísse um jarro de água fria, seguido
de um “acorda, moça” bem sonoro, na minha testa num dia de calor. Foi um alívio instantâneo.
Foi – arrisco dizer – deus, tal qual existir no coração e na alma
de cada um, me dando uma nova vida. Foi meu reencontro comigo, com a Roberta
adolescente que tentava morrer aos poucos sem ser notada, mas que precisava de
ajuda e amparo.
Não digo que meu passado, meus amores, minhas paixões, minhas solidões, meus risos, foram todos mentira. Jamais. Eles foram ilusórios, de certa forma. Eles foram performáticos. Eles buscavam redenção, aprovação e inclusão. É clichê, é jargão, mas é verdade: nada vale mais do que a consciência tranquila de quem não deve sentimento a ninguém, muito menos a si próprio.
Não digo que meu passado, meus amores, minhas paixões, minhas solidões, meus risos, foram todos mentira. Jamais. Eles foram ilusórios, de certa forma. Eles foram performáticos. Eles buscavam redenção, aprovação e inclusão. É clichê, é jargão, mas é verdade: nada vale mais do que a consciência tranquila de quem não deve sentimento a ninguém, muito menos a si próprio.
*me perdoem o texto jogadão, mas ele veio assim, inteiro, nessa ordem, e precisou sair às pressas.

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