terça-feira, 25 de outubro de 2011

Há exatos 4 anos


Nesse tempo em que estive afastada, aprendi uma porção de coisas, dentre elas, aquelas que nem o mais alto nível de graduação acadêmica me daria em anos de estudo catedrático.

1ª) Destruí a máxima de que “o céu é o limite”. Não, ele não o é. Para nada, aliás. Seja para a dor, a alegria ou a superação, do corpo e da mente. Pois sempre haverá um pouco de prazer por detrás do incômodo de uma bolha estourada nas mãos, só por sabê-las ativas.

2ª) Descobri que para me bronzear não preciso chegar a uma cidade de veraneio: basta lavar toda a louça de uma casa que já me visto com a cor do verão. Que detergente pode ser um ótimo emoliente e sapólio um esfoliante facial de primeira qualidade. Que scotch-bright acaba com o encardido de fuligem não só dos objetos, mas das costas e do rosto. Que Bombril promove maravilhas! Que xampu para cabelos ressecados deixa o ladrilho do banheiro um brinco! Que pano de chão e flanela têm o máximo de absorção contra gotas de suor na testa. E que não há sujeira que resista ao Veja Multi-Uso misturado a um pouco de Omo e água sanitária.

3ª) Aprendi também a diferenciar à distância os diversos aromas de Bom-Ar, e a saber que o de Lavanda Campestre e Jasmim são os que mais inibem o cheiro chamuscado da madeira. Que os pratos e canecas usados por pedreiros sempre me servirão um café forte ou um almoço improvisado num dia de correria. Ah, sim. Uma ode aos pedreiros: são eles os verdadeiros arquitetos responsáveis pela reconstrução dos sonhos e realidades de uma família.

4ª) E, por isso mesmo, é que acabei me inteirando um pouco mais ainda sobre preços e nomenclaturas de pequenos detalhes que fazem toda a diferença dentro de uma obra, como: carrapetas e afins; conduítes e terminações coaxiais; fechamentos de ¼ de volta; alisares e caixonetes. Latas de 3,6 ou galões de 18L? Tem de tudo! E só eu sei onde comprar mais em conta! Aliás, querida Professora, dá para imaginar que por dentro das paredes branquinhas que sustentam telhados e separam cômodos corre quase 1Km de fio?

5ª) Enfim, entendi o que significa falácia! Segue a sentença: “Se um cachorro vira-lata não morre asfixiado, há uma grande chance de ele se afogar no dia seguinte. E que se, por ventura, for resgatado a tempo, a probabilidade de contrair uma pneumonia é enorme, então”. Mas, em compensação, não há o que supere a felicidade de vê-lo de volta ao conforto de seu espaço próprio.

6ª) Convenci-me, e a todos à minha volta, de que não há poeira, grossa ou fina, que sobreviva ao anseio pela limpeza. Embora algumas manchas tenham resistido em cantos e frestas, considero-as chagas importantes no cenário atual. Marcas de um tempo de aflição e desespero, sim. Mas também de garra e decisões – ingredientes essenciais para uma obra terminada em tempo recorde na reabilitação de sua própria casa. O sono se torna supérfluo quando uma equipe depende de soluções rápidas e certeiras na compra de material. Aceitei que a caneta, esta com a qual escrevo agora, durante esse tempo não fez nada além de listar afazeres e gravar telefones importantes. E que a poesia que por ela geralmente passa, por hora, esteve somente pululando na cabeça, a espera de um minutinho de folga. Hoje, mais do que já pude supor por toda a minha vida, sei que não importa se é namorado ou namorada, ou o preconceito e a restrição que se enfrente por conta disso: o importante mesmo é sabê-los braços e pernas fortes e dispostos a cooperar e um coração do tamanho do mundo capaz de apaziguar as marés da cabeça e cansaço do corpo.

7ª) Entendi que todo mundo, por mais dureza que aparente, precisa e quer ajuda. Aprendi a recebê-la como um presente. Tudo isso me serviu para que hoje eu possa entender que nada posso sozinha. É nessa hora que se tem clareza de quem levar para a vida e aqueles com que a melhor atitude a ser tomada é deixar que a vida leve.

Apesar de não ter feito revisão alguma das matérias do ano que passou, posso dizer que algumas descobertas se solidificaram e que meus professores teriam muito do que se orgulhar.

8ª) O de física ficaria intrigado quando eu dissesse que a velocidade do fogo, em alguns momentos, parece ser maior do que o da luz. Que as chamas, num piscar de olhos, derretem tudo o que encontram pela frente, sem distinção de grau de importância, tamanho ou material.

9ª) A de matemática passaria a ensinar a nova fórmula que inventei: que amizade e companheirismo são os maiores multiplicadores do número de voluntários na recuperação do coeficiente comum de uma equação que subtrai objetos perdidos, mas soma cuidados.

10ª) O de português daria um DEZ quando eu lhe apresentasse a nova divisão silábica de velhas palavras conhecidas, como com-paixão – pois é com ela que se estende paradigmas.

11ª) Para a professora de música, a nota Dó soaria também como a força motriz para o próprio reerguer.

12ª) O de química se dedicaria a estudar profundamente os efeitos da cafeína no cérebro humano quando, ao avesso dos ponteiros, o dia tem só 24 horas para que tudo aconteça.

13ª) O de geografia não se incomodaria se eu concluísse que não importa o bairro, a cidade, o país ou o continente: lar é sempre lar, e, onde quer que você esteja, o céu sempre lhe parecerá claro e sem nuvens.

14ª) O de ciências... Ah, o de ciência! Esse ficaria com a pulga atrás da orelha ao tentar desvendar os fenômenos de fé, os mesmo que removem montanhas quando necessário.

15ª) Para finalizar, acho que o mais importante disso tudo seja, talvez, querida Professora, nunca deixar nada no stand-by – sejam os eletrodomésticos plugados na tomada ou assuntos por tratar no seu dia a dia.

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