quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Ela que era eu

Ao sair do trabalho, às 18h50 desta quinta-feira, decidi ir ao cinema sozinha, na intenção de um mimo diferente a mim mesma. Durante a caminhada, que durou não mais que 20 minutos, me peguei cantarolando trechos de Ela, canção pouco conhecida, mas eternizada na voz de Elis. Em dado momento, a letra conta: ela sente a solidão do oitavo andar / todo dia a hora triste do jantar. Aportei em meu destino, comprei o ingresso e me dirigi ao bar mais próximo, a fim de tomar minha religiosa cerveja.


Enquanto dividia o balcão com engravatados meio sem escrúpulos, pensava sobre minha atual condição: acho que sou uma pessoa, apesar de muito alegre e falante, tão sozinha na minha intimidade que me vejo, num fim de tarde com sol, sem ninguém para prosear banalidades. Podia pensar: poxa, mas que injustiça! Logo eu, tão solícita e emergencial com quem quer que precise de palavra ou companhia. Mas quem garante que não sou eu quem galga essa intermitente e cada vez mais certa solidão? Quem sabe que não sou eu a causadora disso tudo? Sou sim eu, a própria, a única responsável por isso. Os destinos aonde quer que aterrissem meus pensamentos sempre serão aqueles que percorro com meus pés errantes, tão incertos como os de qualquer ser humano que não guarde na lembrança recordações ou regras de como se vive.


Também não sei viver, apenas vou, jogando meu corpo no mundo, doando minha alma e meu coração ao primeiro comprador interessado em ouvir minhas histórias. E delas só quem sabe sou eu. Nelas, crio mundos, reinvento passados, antecipo desejos. E maquio, purpurino, enfeitiço. Com elas, que podem nada ter a ver com a realidade (aliás, qual?) do dia a dia, apresento uma nova eu, esta muito mais interessante, inteligente, brilhante do que aquela que está, este tempo todo, fazendo hora pra assistir a um filme sozinha no balcão de um bar. Acho que isso é uma forma, sim, de viver. Viver a minha vida.

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