
O que se sucede a cada ida a lugares desconhecidos é uma clara vontade de pertencer à ordem ali vigente. Por exemplo: se eu passar pelo cais do porto numa tarde de sol, sentirei um imã puxar para o mesmo trabalho braçal dos estivadores. Outro: pelo centro da cidade vejo as empregadas domésticas saindo das casas-de-família e penso ‘por que não poderia eu fazer um pouco disso?’; ou então ‘queria tanto trabalhar de dez da manhã às seis horas e ter filhos e casa para cuidar, ou até tomar um chope com o pessoal do trabalho, sabe?’, quando vou caminhando pela saída das barcas Rio-Niterói, geralmente ao final do dia. Canso de escutar críticas que me dizem ser essa maneira de pensar uma forma de subjugar minha própria capacidade, de auto-sabotar meus dotes, de me nivelar por baixo – e, não raramente, isso me constrange.
Não tenho só uma interseção de quereres. Tudo está bom, sempre. Sabe aquela célebre frase que as mocinhas recém chegadas ao estrelato falam: 'Eu fui criada para ser dona-de-casa, mas sempre tive o sonho de ser artista e hoje eu posso dizer que consegui!'? Então, comigo se processa em sentido inverso essa máxima, pois 'Eu tive todo respaldo para fazer da minha vida o que bem entedesse, mas posso dizer que hoje meu sonho é ser nada mais, nada menos do que uma dona-de-casa feliz!'
Escuto músicas o dia inteiro. Faço-me pedaço delas. Falam por mim. Reescrevo mentalmente alguns trechos para que fiquem de acordo com a minha realidade. Mas qual é a MINHA realidade? Não sei. E também acho que jamais saberei.
Por enquanto, defino somente pelo seguinte:
Visto-me mal quase por uma ideologia.
Como bem pelo mesmo motivo.
Amo sem entraves, ao menos, me integro.
Entrego-me de cara. Amo e amo.
Fumo porque gosto, muito.
(também bebo pelo mesmíssimo motivo.)
Sou antiquada por prazer, embora às vezes essa escolha me cause desconforto. Desconforto necessário à vida - desassossego.
Falo mesmo de mim por achar que essa é a única maneira de me conhecer. E aos outros também.
Leio a beça para que minha ‘locomotiva’ não pare.
Sazonalmente, beiro a loucura, não por achar charmoso, e sim por julgar ser uma prática saudável (?).
[To be continued... soon]

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